Há em Yogyakarta um espírito que atravessa os séculos, uma pulsação que mistura o brilho dourado dos palácios, a névoa que se ergue dos vulcões e os ecos de antigos mantras entoados ao amanhecer. Não é por acaso que escritores, exploradores e visionários se deixaram cativar por essa terra onde sultões ainda governam e a arte se confunde com a vida.
Em 1814, quando Stamford Raffles, o célebre governador britânico de Java, cruzou estas terras, ficou fascinado pela sofisticação de uma civilização que prosperava entre montanhas sagradas e campos de arroz infinitos. “Aqui”, escreveu ele, “a história não é apenas lembrada — ela vive.” Séculos antes, mercadores chineses e viajantes árabes já contavam histórias sobre um reino próspero, onde poetas recitavam versos à luz de lamparinas e sombras dançavam nas telas de couro dos teatros noturnos.
Ainda hoje, a cidade e os seus arredores vibram com essa mesma aura mística. De um lado, o palácio do sultão, onde o tempo parece seguir um ritmo próprio, guiado por rituais ancestrais e a pompa de um sultanato ainda vigente. De outro, as estradas que levam a paisagens onde deuses e vulcões se encontram, onde a névoa se abre para revelar terras que poderiam ter sido esculpidas por gigantes ou sonhadas por poetas. Onde templos descomunais impressionam pela sua monumentalidade, mas igualmente pela sua harmonia com o entorno natural. A exuberância da obra do Homem funde-se em equilíbrio com a Natureza.
A arte aqui não se limita a museus. Ela está nos mercados, nos tecidos tingidos à mão, nos cheiros que se espalham pelas ruas, nos contadores de histórias que dão vida às marionetes de couro sob a luz ténue e frágil das lamparinas a óleo. Em Surakarta, a antiga Solo, este teatro de sombras resiste ao tempo, lembrando os viajantes de que, como dizem os javaneses, “o passado é um mestre que nunca se silencia”.
Mas talvez o maior encanto deste lugar esteja na forma como o sagrado e o terreno se entrelaçam. A fé e a terra. O rei e o povo. O artesão e o peregrino. Tudo aqui parece parte de um equilíbrio que desafia o tempo, um segredo que apenas os que se perdem entre estas estradas podem começar a compreender.
Viajar por Yogyakarta e pela sua região, é muito mais do que seguir um itinerário. É ouvir histórias que vêm do vento, sentir o peso da história sob os pés e descobrir que, entre vulcões e sultões, há sempre algo novo a ser desvendado.
Yogyakarta não é uma cidade que se visita… é uma cidade que se sente!